A tireoide e a gestação

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Você sabia que essa glândula tem um papel importante durante a gravidez? A tireoide requer cuidados e atenção, confira o que é preciso saber

Por Dra. Danielle Macellaro, endocrinologista e metabologista do Hospital Israelita Albert Einstein / CRM SP 90 582

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A tireoide ou tiroide é uma glândula no formato de uma borboleta que fica na região anterior do pescoço, logo abaixo do “pomo de Adão”. Ela é responsável pela produção dos hormônios tiroidianos, T4 e T3, que são fundamentais para a ação de quase todos os órgãos do corpo.

A tireoide é comandada por outra glândula, a Hipófise, que fica no cérebro, e produz o hormônio TSH que estimula a tireoide a produzir os hormônios tiroidianos.

Durante a gestação

De acordo com a endocrinologista do Einstein, Dra. Danielle Macellaro, a tireoide sofre grandes alterações no período da gestação, desde a concepção até o puerpério.

O hormônio tireoidiano é fundamental para o desenvolvimento neurológico fetal no início da gestação. Como a tireoide fetal só se desenvolve e passa a produzir hormônio após o primeiro trimestre da gestação, a tireoide materna é a responsável exclusiva pela produção do hormônio tireoidiano que vai abastecer o feto neste período. Portanto, alterações tiroidianas maternas durante a gravidez podem ser prejudiciais tanto para o bebê, quanto para a mãe e a gestação.

As disfunções tireoidianas mais frequentes são o hipotiroidismo (pouca produção hormonal) e o hipertiroidismo (excesso de produção hormonal).

Importância do iodo


O iodo é um micronutriente essencial para a formação do T3 e T4, portanto sua ingesta na gravidez é fundamental. A necessidade de iodo é maior no período da gestação e lactação. A OMS (Organização Mundial da Saúde) preconiza que as gestantes consumam 250 mcg de iodo ao dia.

O iodo pode ser encontrado em peixes do mar, verduras, leites e derivados, além do sal iodado. A carência de iodo na alimentação materna pode causar diminuição na produção de hormônio tireoidiano tanto na mãe quanto no feto. “Os polivitamínicos tomados na gestação normalmente contêm iodo, na forma de iodeto de potássio, a dose recomendada é de 100-150 mcg para complementar a alimentação”, afirma Dra. Danielle. O excesso de iodo também é prejudicial e a dose diária não deve ultrapassar 500 mcg.

Hipotiroidismo

O hipotireoidismo ou hipotiroidismo é caracterizado pela diminuição da produção de hormônio tireoidiano. Portanto, se a mãe produz menos hormônio, o bebê também terá pouco hormônio em uma fase que é fundamental para a formação do cérebro. O hipotiroidismo está associado a um aumento no risco de aborto, hipertensão, parto prematuro e diabetes gestacional.

A principal causa de hipotiroidismo em países carentes de iodo é a deficiência de iodo. No Brasil, desde 1953 existe uma Lei que obriga a adição de iodo no sal para evitar a deficiência de iodo. No nosso meio, a principal causa de hipotiroidismo em mulheres com ingestão adequada de iodo é a Tireoidite de Hashimoto, uma inflamação crônica da tireoide de origem autoimune. A doença pode ter o diagnóstico prévio à gestação ou durante a gestação.

Outras causas de hipotiroidismo prévio à gestação são pacientes que foram submetidas a tratamento com iodo radioativo e cirurgia da tireoide.

O diagnóstico é feito por meio do exame de sangue com a dosagem do hormônio TSH. Lembrar que o valor de referência do TSH da gestante é diferente da não gestante, sendo menor tanto no limite inferior como no superior.

Portanto, como o hipotireoidismo é prejudicial tanto para o bebê como para a mãe, é importante saber desta condição antes de planejar a gravidez.

A função tiroidiana deve ser avaliada na preconcepção ou no início da gestação nas mulheres que apresentarem:
• Sintomas de hipotireoidismo;
• História de doença tireoidiana;
• História de tireoidite pós-parto;
• Cirurgia tireoidiana prévia;
• História familiar de doença tireoidiana;
• Bócio (aumento da glândula);
• Diabetes tipo 1 ou outras doenças autoimunes;
• Aborto prévio ou história de parto prematuro.

Algumas entidades médicas preconizam que a função tiroidiana deve ser avaliada em todas as mulheres, independente do fator de risco “Screening Universal”.

O tratamento é a administração diária em jejum da medicação Levotiroxina, que é um hormônio sintético igual ao T4 produzido pela própria tiroide, que passa a barreira placentária. Portanto, vai suprir também a necessidade do hormônio no feto.

Outras formas de reposição hormonal com T3 não são recomendadas na gestação, já que não ultrapassam a placenta, não chegando ao feto que é dependente do hormônio materno. Em caso de mulheres que apresentam diagnóstico de hipotiroidismo prévio e já fazem o uso da Levotiroxina antes da gestação, a recomendação é procurar rapidamente seu médico, pois normalmente a dose da medicação deve ser aumentada já nas primeiras semanas.

Hipertiroidismo

O hipertireoidismo ou hipertiroidismo é a produção excessiva de hormônio tiroidiano e também pode ocorrer na gestação. Os sintomas mais frequentes são:
• Calor excessivo;
• Palpitações;
• Nervosismo e dificuldade de dormir;
• Ausência de ganho de peso.

Assim como o hipotiroidismo, o hipertiroidismo pode trazer riscos para mãe e bebê. Pode causar hipertensão arterial, eclampsia, aborto, parto prematuro e baixo peso ao nascer.

No primeiro trimestre da gestação, devido à elevação do hormônio Beta HCG (aquele hormônio que dosamos para confirmar a gravidez), pode ocorrer um quadro de hipertiroidismo transitório que não necessita de tratamento específico. O HCG é um hormônio que apresenta uma semelhança com o TSH e consegue se ligar a seus receptores na tireoide e aumentar a produção dos T3 e T4.

A principal causa de hipertireoidismo é a Doença de Graves, uma doença autoimune na qual há uma produção de anticorpos estimuladores da glândula tireoide produzindo aumento e produção excessiva de hormônios. A doença pode ter início na gestação ou ter o diagnóstico prévio.

O tratamento é realizado com medicações chamadas antitiroidianas, que vão controlar a produção de hormônio pela tireoide. Em algumas situações especiais como não resposta ao tratamento medicamentoso ou alergia à medicação, pode ser necessário o tratamento cirúrgico, que deve ser realizado no segundo trimestre.

As mulheres que apresentam diagnóstico de hipertiroidismo antes da gestação devem conversar com seu médico para o melhor controle da doença e evitar, assim, intercorrências na gestação.

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