Criança pode ter problema no coração? Precisa fazer avaliação cardiológica?

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Sim. Dr. Gustavo Foronda, cardiologista pediátrico do Hospital Israelita Albert Einstein, fala sobre cardiopatias congênitas e adquiridas, além de outros temas sobre a saúde cardíaca infantil.

Por dr. Gustavo Foronda, cardiologista pediátrico do Hospital Israelita Albert Einstein/ CRM-SP 78.383 

Quais são as principais cardiopatias que afetam as crianças?

Quando falamos em cardiopatias pediátricas há dois grandes grupos. As cardiopatias congênitas, quando a criança nasce com uma malformação cardíaca anatômica, e as cardiopatias adquiridas, quando a criança desenvolve uma disfunção cardíaca secundária, sendo as miocardiopatias e arritmias exemplos deste subgrupo.

As cardiopatias congênitas geralmente são problemas graves, que necessitam de tratamento cirúrgico. O diagnóstico da grande maioria dos problemas cardíacos congênitos pode ser feito no pré-natal e também com o teste do coraçãozinho.

Outra área de atuação do cardiologista pediátrico é o da prevenção de cardiopatias futuras, onde trabalhamos com crianças com fatores de risco, como histórico familiar importante de dislipidemias (alterações de colesterol, triglicérides), diabetes, obesidade, hipertensão etc. É realizado um acompanhamento, com orientação e medidas preventivas, para que essa criança não evolua para um adolescente ou um adulto com risco de doença cardiovascular.

Há diferença no tratamento das cardiopatias?

Quando se trata de uma cardiopatia congênita, o tratamento, apesar de mais agressivo, tem uma aderência maior. Quando existe um problema estrutural do coração, sempre vem à cabeça um risco de morte real e imediato. As famílias procuram o tratamento, mesmo que cirúrgico, dispostas a fazer o que for necessário.

Mostrar a necessidade da prevenção ou necessidade de tratamento crônico, porém, é mais difícil. Por isso a prevenção de pacientes de risco é muito mais complicada. Convencer a família e a criança de que existe um risco daqui a 30 anos é muito complicado. Conseguir mudanças de dieta e hábitos de vida em uma criança “normal” e conscientizar famílias inteiras é uma tarefa extremamente trabalhosa.

Quando o indivíduo deve começar a se preocupar com o coração?

Hoje toda criança que vai fazer uma atividade física competitiva precisa de uma avaliação cardíaca mais específica. Nesse caso é necessária, além de uma avaliação cardiológica, uma avaliação global, multiprofissional, com a participação de ortopedistas, fisioterapeutas e nutricionistas.

As crianças obesas compõe um grupo que normalmente necessita de atenção especial. Na verdade, o que nós gostaríamos é que toda criança com algum fator de risco para doença cardiovascular futura fizesse acompanhamento, mas para isso é necessário uma conscientização de toda a população.

Sabemos que a doença cardiovascular, que acomete o adulto, pode começar desde os dois anos de idade. Pacientes com maior risco, como diabéticos, crianças com histórico familiar de dislipidemias e doença cardiovascular, pacientes obesos e expostos ao tabagismo já tem formação de fases iniciais de placas de ateroma desde a infância. Portanto, sabemos que o acompanhamento deve ser efetivamente mais próximo. Iniciado sempre que forem evidenciados os fatores de risco e mais agressivo quando detectada a existência de problema real, como obesidade ou a dislipidemia instalada.

Quais são os fatores de risco das coronariopatias?

Vários são os fatores de risco. Antecedentes familiares de dislipidemia, história familiar de infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral, morte súbita, principalmente em jovens, sobrepeso, exposição a tabagismo, sedentarismo, doenças renais crônicas, uso crônico de alguns medicamentos (corticoides, por exemplo).

Tratar e controlar os fatores de risco desde cedo é a forma mais fácil de evitar consequências nos órgãos alvos. Além disso, a mudança de hábitos na infância é muito mais fácil do que nos adultos.

Quais as vantagens do diagnóstico e tratamento precoce dos fatores de risco cardiovasculares?

Sabemos que arteriosclerose pode começar desde os dois anos de idade. Se você consegue abortar esse processo cedo, na infância e/ou adolescência, a recuperação do tecido acometido é muito mais efetiva. Assim, a capacidade de reversão de danos e de solução dos problemas é muito maior com o tratamento clínico, mudanças de hábitos e medicamentos. Além disso, sabemos crianças com fator de risco têm maior chance de continuar com o problema na faixa etária adulta. Um menino com sobrepeso, por exemplo, tem uma chance muito grande de ser um adulto obeso.

Quem pode pedir a avaliação cardiológica infantil?

O acompanhamento pediátrico é a base da prevenção. O pediatra é responsável pela orientação dos problemas e pela solicitação dos exames nos momentos adequados. O momento exato dessa solicitação de exames, porém, muitas vezes não é tão bem definida. Vai colher colesterol com 2, 5 ou 10 anos? Neste momento, ou quando existe a necessidade de um tratamento medicamentoso específico, a avaliação cardiológica deve ser solicitada.

Há diferença nos exames para crianças/ adolescentes e adultos?

Os exames são específicos para cada faixa etária. Exames laboratoriais, ecocardiograma, teste de esforço, por exemplo, são os mesmos para adultos, mas adaptados a cada faixa etária. Também devemos considerar que alguns exames já validados para adultos não têm validação pediátrica.

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