Displasia do desenvolvimento do quadril: principais informações

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Por Dr. Amâncio Ramalho Júnior, Ortopedista e Traumatologista / CRM SP 34 182

A displasia do desenvolvimento do quadril (DDQ) é uma alteração na formação da articulação do quadril em que a cabeça do fêmur (esfera que fica na parte superior do osso) não é mantida com firmeza em seu encaixe no osso da bacia. Isso pode ocorrer porque os ligamentos e a cápsula da articulação do quadril, devido a uma grande elasticidade, não conseguem manter o quadril encaixado.

O grau de frouxidão do quadril, ou instabilidade, é variável. Em algumas crianças, logo após o nascimento há apenas uma leve instabilidade, ou seja, há uma tendência para o desencaixe da cabeça do fêmur. Em outras crianças, ocorre o deslocamento completo da articulação, perdendo-se o contato entre o fêmur e a bacia. Existem também casos em que a cabeça do fêmur vai se afastando progressivamente à medida que a criança cresce e se torna mais ativa.

Já no primeiro exame do recém-nascido e em todas as avaliações do pediatra as articulações do quadril devem ser testadas à procura dos sinais de instabilidade. Quando a instabilidade é detectada ao nascimento, a correção é realizada e o resultado em geral é muito bom. No entanto, quando o quadril não estiver deslocado ao nascer ou se o deslocamento só for percebido quando a criança começar a andar, os resultados já não são tão favoráveis.

Nos casos em que a DDQ não é tratada pode ocorrer dor e desgaste articular na idade adulta. Além disso, haverá diferença de comprimento entre as pernas e a maneira de andar será com maior oscilação do corpo, lembrando a “marcha de pato”, com significativa perda de agilidade. Quando o tratamento é feito com sucesso (e quanto mais cedo melhor) as crianças recuperam a função normal da articulação do quadril.

É importante ressaltar quealguns bebês nascem com um quadril deslocado sem nenhum sinal externo. O pediatra deve ser alertado caso seu bebê apresente:

  • Menor mobilidade ou flexibilidade de um dos quadris (dificuldade para a abertura das pernas, em geral observada nas trocas de fraldas);
  • Pernas de comprimentos diferentes;
  • Alteração no andar do tipo mancar ou marcha na ponta de apenas um dos pés;
  • Dobras de pele assimétricas na coxa.

A DDQ tem maior incidência em determinadas famílias podendo, no entanto, estar presente em ambos os quadris e em qualquer indivíduo. Entretanto é observada a predominância em:

  • Bebês que nascem na posição pélvica (de acordo com a Academia Americana de Pediatria o exame por ultrassom do quadril deve ser feito em todos os bebês do sexo feminino que nascem em apresentação pélvica);
  • Casos de DDQ na família;
  • Meninas;
  • Primeiras filhas do casal;
  • Outros fatores que podem estar associados a maior risco para a DDQ são:
    • Fetos grandes (peso superior a 3500g);
    • Oligodrâmnio (pequena quantidade de líquido amniótico no útero).

Além das alterações citadas acima que podem ser percebidas visualmente, o médico fará um cuidadoso exame, com testes específicos para verificar a presença de DDQ, buscando ouvir e sentir ressaltos e instabilidade quando o quadril é manipulado. Essas manobras ou movimentos são denominados como testes de Ortolani e Barlow, médicos que as descreveram para a detecção precoce da DDQ. Estes testes devem ser feitos apenas pelo médico e não devem ser repetidos muitas vezes. O exame deve ser feito em um quadril por vez e a criança deve estar tranquila (Figura 1).

Figura 1 – Exame feito pelo Pediatra Dr. Marino Ortolani quando de sua visita a São Paulo em 1972. (Fotografia gentilmente cedida pelo Dr. Francisco A. S. Cafalli)

Os exames de imagem que podem confirmar o diagnóstico são o ultrassom e a radiografia simples da bacia. O ultrassom está indicado nos primeiros meses de vida, sendo que após 4-6 meses deixa de ser o exame mais fidedigno (Figura 2 e 3). Isso porque, a partir dessa idade, já se inicia a ossificação da cabeça do fêmur, o que impedirá a visualização da cavidade chamada acetábulo, onde o fêmur se encaixa na bacia. As radiografias da bacia servirão como exames de controle após essa idade. O exame por ressonância magnética não é indicado para esses casos, salvo raras exceções em que há suspeita de outros problemas associados.

Figura 2 – Exame por ultrassom do quadril esquerdo de um bebê com suspeita de DDQ.
Figura 3 – (A) Exame por ultrassom do quadril demonstrando importante displasia; (B) medida do teto ósseo alterada (normal ≥ 60º); (C) índice de cobertura insuficiente (normal ≥ 50%).

Os métodos de tratamento a serem adotados dependerão da idade da criança.

Recém-nascidos:
Nessa idade é utilizado um tipo de suspensório (Pavlik) por um a dois meses. O suspensório de Pavlik, confeccionado com materiais flexíveis e macios, é um dispositivo que, por manter as pernas do bebe em posição de flexão e moderada abertura, promove o encaixe normal do quadril (Figura 4). Apesar da impressão de desconforto, que é sempre uma preocupação dos pais, é importante ressaltar e frisar que o resultado com esse tratamento tem grande chance de ótimos resultados quando seguido adequadamente. As complicações pelo uso do suspensório de Pavlik são raras e geralmente associadas ao uso em crianças sem indicação para o mesmo. Confie no seu médico!

Figura 4 – Criança em tratamento com suspensório de Pavlik.

Entre 6 meses e um ano:
Nessa idade o uso do suspensório fica mais difícil, pois a criança já senta, tenta engatinhar e quer ficar em pé. Por esse motivo, e também pela necessidade de manter o fêmur posicionado de maneira mais rígida, o tratamento indicado é a colocação de um aparelho de gesso pelo período médio de 12 semanas e, após isso, uma órtese que mantém os quadris em flexão e com as pernas abertas. Essa órtese pode ser retirada para o banho. Para a colocação desse gesso, que inclui a cintura e as duas pernas, o bebê deverá ser anestesiado.

Algumas vezes, é necessária a realização da cirurgia, pois pode persistir a instabilidade na articulação sem que a formação óssea seja completa. Nesses casos também é colocado um gesso similar ao descrito anteriormente para manter a posição do quadril.

Idade superior a um ano:
Após um ano de idade as deformidades tendem a ficar mais severas e a cirurgia pode ser necessária para realinhar o quadril. Radiografias e avaliações com o ortopedista são obrigatórias até o final do período de crescimento da criança.

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