Como gerir os cuidados de pessoas com problemas mentais sem adoecer

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Na Semana da Memória, aproveite para saber mais sobre a importância de manter a saúde mental e física do cuidador

Nessa matéria com o Neurologista Dr. Ivan Okamoto, o Vida Saudável traz dicas para você que é cuidador de pessoas com doenças mentais, sobretudo o Alzheimer.

É fato que cuidadores de pacientes com Alzheimer podem atingir um alto nível de estresse, aumentando a carga de cortisol (principal hormônio relacionado ao estresse) no organismo, ocasionando doenças que podem prejudicar a sua saúde física e mental.

O propósito dessa matéria é ajudar você, que é cuidador, a criar um estilo de vida mais saudável, a partir da redução de sintomas de exaustão para melhorar o seu bem-estar e permitir uma vida com lazer e tranquilidade, sem a sensação de culpa.

Neste sentido, o Dr. Ivan apresenta dicas bastante importantes para lidar com todas as fases do tratamento dessa doença, assim como promover mais saúde.

Mas antes das dicas, vamos entender um pouco mais sobre o Alzheimer?

Segundo o Ministério da Saúde, no Brasil, cerca de 1,2 milhão de pessoas vivem com alguma forma de demência e 100 mil novos casos são diagnosticados por ano.

O Alzheimer é uma doença neurodegenerativa, progressiva e ainda sem cura que afeta, majoritariamente, pessoas acima de 65 anos de idade, impactando a memória, a linguagem e a percepção do mundo.

A doença provoca alterações no comportamento, na personalidade e no humor do paciente.

Todo mundo está sujeito a ser um futuro cuidador e por isso o Dr. Ivan aconselha atenção a pelo menos 11 sinais de alerta para o Alzheimer:

  • Problema de memória que chega a afetar as atividades e o trabalho
  • Dificuldade para realizar tarefas habituais
  • Dificuldade de comunicação
  • Desorientação no tempo e no espaço
  • Diminuição da capacidade de juízo e de crítica
  • Problemas de raciocínio
  • Posicionamento de coisas no lugar errado, muito frequentemente
  • Alterações frequentes do humor e do comportamento
  • Mudanças na personalidade
  • Perda da iniciativa para fazer as coisas
  • Perda da percepção da doença (anosognosia)

A doença é progressiva e os sintomas podem ser divididos em três “fases”:

  • Leve: falhas de memória e esquecimentos constantes; dificuldades em realizar tarefas complexas (como cuidar das finanças, por exemplo).
  • Moderada: o paciente já necessita de ajuda para realizar tarefas simples, como se vestir.
  • Avançada: o paciente necessita de auxílio para realizar qualquer atividade, como comer, tomar banho e cuidar da higiene.

E quais são as dicas para você, que já exerce a função de cuidador de paciente com Alzheimer em sua família?

Mesmo com experiência como cuidador, você também é um paciente e precisa cuidar bem da sua saúde física e mental, para melhor estar preparado a administrar todas as situações – muitas vezes delicadas – que envolvem os cuidados de um paciente com Alzheimer.

Na opinião do Dr. Ivan, o quadro demencial sempre pega o familiar e o paciente de surpresa. “Na cultura brasileira, as pessoas costumam optar por cuidar da pessoa em casa. Isso traz uma imensa sobrecarga para o cuidador”.

Por isso, é fundamental procurar ajuda entre os familiares ou contratar mão de obra especializada. “Eu aconselho dividir esse trabalho não somente durante o dia como à noite também. E não assumir sozinho toda a atenção que envolve o paciente com doença mental”, aconselha o médico.

Outra dica é não deixar de sair com amigos e outros familiares ou até mesmo sozinho para fazer o que gosta, a fim de espairecer a mente e desfrutar de momentos agradáveis e felizes.

Doença familiar

O Alzheimer é caracterizado, entre outros fatores, como uma doença familiar. “A família para assistir bem esse paciente precisa estar minimamente estruturada, evitando um colapso que pode atingir de modo negativo todos os seus integrantes”, diz o Dr. Ivan.

Ao invés de levar à união dos familiares, o desequilíbrio emocional e físico pode acarretar desentendimentos e rompimentos que ocasionarão ainda mais estresse entre as pessoas ligadas aos pacientes.

Então, quanto mais o cuidador estiver bem cuidado, melhor ele assistirá o paciente e terá condições para gerir todo o cenário, além de se dedicar à sua saúde.

Auxiliando você a lidar melhor com o paciente

Para menos estresse, mais equilíbrio emocional e controle da situação, o Dr. Ivan aconselha a exercitar a paciência e descobrir os gatilhos mentais que fazem o paciente colaborar com seus cuidados.

O ato de tomar banho, por exemplo, costuma ter resistência entre as pessoas com Alzheimer. “Normalmente o paciente se sente desprotegido ao tirar a roupa ou aceitar que alguém possa estar tão próximo assim de sua intimidade”.

Então, é indicado descobrir com muita calma, amor e observação os gatilhos que ajudam a pessoa a aceitar sua higienização. “Um familiar recentemente disse que, ao retirar o espelho do banheiro, a paciente passou a aceitar ser auxiliada no banho, eliminando sua resistência”.

O médico sugere algumas estratégias para lidar com a agressividade e as alterações comportamentais do ente querido:

  • Ter sempre uma atitude afetuosa
  • Estabelecer o contacto visual e ouvir atentamente
  • Manter um ambiente calmo e sem ruídos
  • Recorrer à linguagem corporal para facilitar a comunicação
  • Permanecer calmo e falar de maneira clara e gentil
  • Utilizar frases curtas e simples, focando uma ideia de cada vez
  • Dar tempo à pessoa para compreender o que lhe transmitiu
  • Dizer previamente o que pretende fazer antes de abordar o paciente, principalmente no caso de prestação de cuidados pessoais
  • Inverter frases negativas, tornando-as afirmativas (substituir “Não faça isso” por “É melhor fazer assim”)
  • Dizer para a pessoa o que ela pode fazer para ajudar em uma situação que você está precisando resolver, como por exemplo, ir ao médico, tomar um remédio, almoçar, jantar etc.
  • Se acontecer algum conflito de entendimento, mudar de assunto e procurar sempre apaziguar a situação. A pessoa com Alzheimer passa a não compreender o ambiente com clareza e ter dificuldade de abstração
  • Quanto mais contato presencial melhor. O ideal é evitar falar com a pessoa com a doença em chamadas virtuais

Existe ainda um conjunto de atitudes que podem ajudar a manejar diversos acontecimentos, como:

  • Não discutir e dar ordens. A pessoa não terá capacidade para perceber o que está errado e só irá agravar a situação
  • Não utilizar modos e palavras que denotam intransigência e autoritarismo. Um tom de voz arrogante pode ser apreendido mesmo que a pessoa não compreenda as palavras, o que poderá deixá-la ainda mais perturbada
  • Não fazer perguntas que exijam a utilização da memória. Essas indagações causam um sentimento de mais frustração no paciente
  • Não estimular confrontos. Tentar sempre contornar uma situação em caso de delírio em diferentes contextos, concordando com a pessoa de modo que ela fique mais calma e menos ansiosa, mudando de assunto

Para mais dicas e entendimento sobre esse tema, o neurologista aconselha consultar instituições preparadas para orientar o cuidador, a fim de que possa lidar melhor com o seu ente querido e diminuir seus níveis de estresse. “Inclusive elas promovem congressos e reuniões dirigidas exclusivamente para cuidadores”.

Mas, lembre-se: Nem tudo o que está em manuais necessariamente poderá acontecer. “Eles servem para dar orientações aos problemas que o paciente apresenta”. Por isso, não é necessário se preparar ou ler sobre sintomas que o paciente não apresenta, pois ele pode nunca desenvolver tal comportamento. “É fundamental respeitar a evolução gradativa da doença para não causar tanta ansiedade no cuidador”, finaliza o Dr. Ivan.

Para saber mais sobre como gerir a saúde de pessoas que cuidam de pacientes com Alzheimer, clique aqui:

Semana da Memória

O dia 21 de setembro foi criado pela Alzheimer’s Disease International (ADI) a fim de aumentar a conscientização sobre a doença e o estigma que cerca a demência.

A Semana da Memória realizada pelo Einstein, de 26 a 30 de setembro de 2022, por meio do Núcleo de Excelência em Memória (NEMO), tem a missão de divulgar mais informações de modo a facilitar e propiciar esclarecimentos e campanhas focadas na educação sobre este tema.

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